Riscos psicossociais no trabalho e gerenciamento conforme a NR-1

Riscos psicossociais no trabalho: prevenção não cabe em um calendário

Se a saúde mental importa durante todo o ano, por que tantas empresas ainda concentram essa conversa em setembro?

O Setembro Amarelo tem um papel relevante. A campanha ajuda a romper silêncios, estimula a procura por apoio e amplia a discussão sobre saúde mental. No entanto, dentro das organizações, prevenção não pode se limitar a palestras, mensagens motivacionais ou recomendações de autocuidado.

Desde 26 de maio de 2026, a nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 está em vigor. O texto incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, o GRO.

Na prática, isso amplia a responsabilidade preventiva das empresas. A organização precisa observar também como o trabalho é planejado, distribuído, acompanhado e executado.

Por isso, falar sobre saúde mental no ambiente corporativo exige mais do que conscientização. Exige identificar perigos, avaliar riscos, definir medidas de prevenção e acompanhar sua efetividade.

Saúde mental no trabalho não é um tema sazonal

Os dados disponíveis ajudam a dimensionar a relevância do tema. Estudo nacional publicado em 2026, com dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade do DATASUS, identificou 191.715 óbitos por suicídio no Brasil entre 2010 e 2024. Entre os quinquênios de 2010 a 2014 e de 2020 a 2024, houve crescimento de 56,57%.

Esses números não demonstram relação causal com o trabalho. O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Aspectos biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, culturais e existenciais podem se combinar de formas diferentes em cada situação.

Portanto, seria tecnicamente inadequado transformar um problema dessa dimensão em consequência direta do ambiente ocupacional.

Ainda assim, o trabalho ocupa uma parcela importante da vida adulta. Além disso, determinadas condições laborais podem contribuir para sofrimento, desgaste, adoecimento ou perda de capacidade para o trabalho.

É justamente nessa parcela, que está sob gestão da organização, que a prevenção precisa acontecer.

Uma palestra não compensa jornadas excessivas. Uma mensagem sobre resiliência não corrige metas incompatíveis com os recursos disponíveis. Da mesma forma, incentivar o autocuidado não substitui o enfrentamento do assédio, da falta de apoio, dos conflitos persistentes ou da ausência de reconhecimento.

As empresas não conseguem resolver todos os determinantes da saúde mental. Entretanto, precisam atuar sobre as condições de trabalho que podem identificar, avaliar e modificar.

O que são riscos psicossociais no trabalho?

Os riscos psicossociais no trabalho estão relacionados a condições da organização, do conteúdo e das relações de trabalho. Quando essas condições são inadequadas, podem aumentar a probabilidade de lesões ou agravos à saúde.

As orientações do Ministério do Trabalho e Emprego apresentam diversos exemplos. Entre eles estão excesso de demandas, assédio, falta de suporte, baixa clareza de papéis e baixa autonomia.

Também aparecem falta de reconhecimento, conflitos, relacionamentos inadequados, subcarga, trabalho isolado e eventos violentos ou traumáticos. Além disso, problemas de comunicação e má gestão de mudanças organizacionais podem integrar essa análise.

Portanto, o foco não está em procurar pessoas consideradas “mais frágeis”. Também não está em descobrir quem possui um transtorno mental.

O objeto da avaliação é o trabalho e as condições em que ele acontece.

Essa diferença é essencial. Gerenciar riscos psicossociais no trabalho significa analisar condições ocupacionais que podem ser prevenidas ou modificadas pela organização.

O que a NR-1 exige das empresas?

A Portaria MTE nº 1.419/2024 alterou o capítulo 1.5 da NR-1. Entre as mudanças, incluiu expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no escopo do GRO.

Posteriormente, a Portaria MTE nº 765/2025 prorrogou o início da nova redação. A vigência começou em 26 de maio de 2026.

Com isso, a organização deve considerar os riscos psicossociais no trabalho dentro da lógica do gerenciamento ocupacional. Isso significa identificar os perigos, avaliar os riscos, implementar medidas de prevenção e acompanhar os resultados.

Essa gestão também se conecta diretamente à NR-17.

Conforme as orientações oficiais, a Avaliação Ergonômica Preliminar, AEP, é uma das bases para identificar e avaliar fatores ergonômicos. Nesse processo, a organização também deve considerar os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.

Quando a situação exige aprofundamento, a Análise Ergonômica do Trabalho, AET, permite estudar a atividade de forma mais detalhada.

Esse ponto evita um erro frequente. O levantamento de riscos psicossociais não deve ser tratado como projeto isolado de Recursos Humanos. Também não deve se reduzir a uma pesquisa de clima desvinculada do sistema de Segurança e Saúde no Trabalho.

Levantamento psicossocial não é diagnóstico de saúde mental

O levantamento dos riscos psicossociais no trabalho não tem finalidade clínica. Portanto, ele não deve diagnosticar depressão, ansiedade, burnout ou qualquer outro transtorno mental.

Da mesma forma, não deve tentar identificar individualmente trabalhadores em sofrimento ou investigar intenção suicida.

Essas questões pertencem ao campo da saúde e exigem abordagem apropriada por profissionais habilitados.

No contexto do GRO, a finalidade é outra. O levantamento busca compreender como características concretas do trabalho podem atuar como perigos e gerar riscos ocupacionais.

Por exemplo, uma equipe pode estar exposta a demandas cognitivas elevadas, conflitos de papéis ou baixa previsibilidade. Também pode existir pressão temporal intensa ou suporte insuficiente da liderança.

A análise deve investigar essas condições, sua abrangência e os grupos expostos. Em seguida, precisa relacioná-las às possíveis consequências para a saúde e a segurança.

Essa distinção melhora a qualidade técnica do processo. Além disso, protege as pessoas contra avaliações individuais indevidas.

Aplicar um questionário é suficiente?

Não.

O Ministério do Trabalho e Emprego esclareceu que não existe uma metodologia única obrigatória para avaliar os riscos psicossociais no trabalho. A estratégia deve ser compatível com o porte da organização, as atividades desenvolvidas e a estrutura existente.

Questionários podem ser ferramentas muito úteis. Em empresas com vários setores, por exemplo, eles ajudam a organizar percepções, identificar padrões e comparar grupos de avaliação.

Entretanto, o próprio MTE ressalta que o questionário aplicado isoladamente não caracteriza o gerenciamento desses riscos.

Por isso, a equipe técnica precisa interpretar os resultados considerando as características reais do trabalho. Além disso, a organização deve integrar esses resultados à AEP e, quando aplicável, à AET, ao inventário de riscos e ao plano de ação.

Além disso, outras fontes podem complementar o levantamento. Observação das atividades, análise da organização do trabalho, entrevistas, diálogo com trabalhadores e documentos da empresa ampliam a compreensão do contexto.

Em grupos muito pequenos, uma pesquisa quantitativa pode apresentar baixa representatividade. Também pode comprometer a confidencialidade. Nesses casos, estratégias qualitativas e participativas podem ser mais adequadas.

Portanto, levantar riscos psicossociais no trabalho não significa simplesmente disponibilizar um formulário e calcular percentuais.

Como estruturar um levantamento consistente?

Um processo tecnicamente consistente começa antes de qualquer formulário.

Primeiro, é necessário conhecer a organização, suas atividades, seus setores e as características reais do trabalho. Em seguida, devem ser definidas as unidades de avaliação.

Dependendo da empresa, a análise pode ser organizada por setor, função, atividade ou grupo similar de exposição. O agrupamento precisa fazer sentido para a realidade observada.

Depois, selecionam-se as estratégias de levantamento. Questionários, observações, análise documental e escuta dos trabalhadores podem ser combinados.

A confidencialidade merece atenção especial. Se as pessoas acreditarem que suas respostas serão individualizadas, a participação pode perder qualidade. Por isso, o tratamento dos resultados deve evitar exposições desnecessárias e preservar o anonimato quando essa for a estratégia definida.

Após a coleta, começa a etapa central: a análise técnica.

Não basta apresentar percentuais ou gráficos. É preciso interpretar os achados à luz das atividades realizadas. Além disso, a análise precisa identificar perigos, estimar riscos, reconhecer grupos expostos e relacionar os resultados às condições concretas de trabalho.

É essa etapa que transforma um levantamento de informações em gerenciamento efetivo dos riscos psicossociais no trabalho.

Do levantamento ao plano de ação

Um levantamento de riscos psicossociais perde valor quando termina apenas em uma apresentação de resultados.

Quando um fator relevante é identificado, a organização precisa avaliar medidas capazes de atuar sobre sua origem.

Em alguns casos, será necessário rever a distribuição de tarefas ou o dimensionamento da equipe. Em outros, o problema pode estar na definição de papéis, na comunicação ou no suporte da liderança.

Também podem surgir necessidades relacionadas à organização das jornadas, autonomia, prevenção do assédio, reconhecimento e processos de feedback.

Por isso, o plano de ação deve estabelecer medidas, responsáveis, prazos e formas de acompanhamento.

Depois, a empresa precisa verificar se as ações produziram o efeito esperado. Afinal, gerenciamento de riscos não é uma fotografia. É um processo contínuo.

Em outras palavras, a responsabilidade não termina quando o relatório é entregue. O documento deve orientar decisões e integrar o ciclo permanente do GRO.

Setembro Amarelo: conscientização precisa levar à prevenção

Falar sobre saúde mental em setembro continua sendo importante. O problema surge quando a campanha substitui a gestão.

Conteúdos motivacionais podem sensibilizar, mas não corrigem condições inadequadas de trabalho. Palestras podem informar, mas não eliminam fatores de risco.

Programas de bem-estar também podem complementar uma estratégia. No entanto, não devem transferir para o indivíduo a responsabilidade por suportar um ambiente que precisa ser revisto.

A abordagem mais consistente combina acolhimento, acesso a cuidados de saúde quando necessário e prevenção organizacional.

Assim, o Setembro Amarelo pode cumprir um papel maior. Além de lembrar que saúde mental importa, pode provocar uma pergunta dentro das empresas:

O que, na forma como organizamos o trabalho, pode e deve ser melhorado?

Essa pergunta desloca o debate da responsabilidade exclusivamente individual para aquilo que efetivamente pode ser gerenciado pela organização.

Como a CVL Engenharia atua nos riscos psicossociais no trabalho

A CVL Engenharia e Serviços realiza o levantamento dos fatores de risco psicossociais de forma integrada ao GRO/PGR e à gestão ergonômica prevista na NR-17.

A abordagem considera as características da organização e a definição dos grupos de avaliação. Também contempla a participação dos trabalhadores, a confidencialidade das informações e a análise técnica dos fatores identificados.

Quando aplicável, instrumentos estruturados de levantamento fazem parte do processo. Entretanto, eles não são tratados como finalidade isolada.

Os resultados são analisados por setor ou grupo de exposição. Em seguida, são classificados conforme a metodologia definida e convertidos em informações para o inventário de riscos e o plano de ação.

Dessa forma, o gerenciamento dos riscos psicossociais no trabalho deixa de ser uma ação pontual e passa a integrar efetivamente a prevenção ocupacional.

O objetivo é entregar mais do que um diagnóstico genérico. A empresa recebe uma base técnica para decidir onde intervir, quais prioridades estabelecer e como acompanhar as medidas adotadas.

Saúde mental não cabe em um calendário. No ambiente de trabalho, prevenção se constrói de janeiro a janeiro, com escuta, método, responsabilidade técnica e ações concretas.

Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento, procure uma Unidade Básica de Saúde, um CAPS ou outro serviço de saúde. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo número 188. Em situações de urgência, procure uma UPA ou pronto-socorro, ou acione o SAMU pelo 192.

Fontes consultadas

Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Ministério do Trabalho e Emprego. Manual de Interpretação e Aplicação do Capítulo 1.5 da NR-1 – Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. 2026.
Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho. 2025.
Ministério do Trabalho e Emprego. Perguntas e Respostas sobre o Capítulo 1.5 da NR-1. 2026.
Ministério da Saúde. Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM/DATASUS.
MACIEL, A. C. et al. Mortalidade por suicídio no Brasil: evolução temporal, perfil epidemiológico, meios utilizados e diferenças regionais, 2010–2024. Revista DCS, v. 23, n. 93, e6494, 2026.